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O Caderno de Linhas

Desabafos, pensamentos, coisas com demasiado sentido.

O Caderno de Linhas

Desabafos, pensamentos, coisas com demasiado sentido.

Qui | 25.12.25

No tempo de Deus

April

Sentada na mesa de almoço da véspera de Natal, mesa farta, com comida deliciosa, mas o vazio cai de repente no colo.

Olhava à volta e nada me fazia sentido, apenas o sol que batia na janela e me aquecia, tudo o resto vazio.

O mesmo vazio ao jantar da véspera de Natal, o mesmo vazio na abertura de prendas, o mesmo vazio no levantar do dia 25. 

Já não sou criança, já não há magia. Só um vazio.

Hoje ao almoço de Natal tive vontade de me levantar e dar um murro na mesa, queria gritar a dor que me habita e fugir para longe durante 24 horas e esquecer o Natal. Não é mais Natal dentro do meu peito. Porquê. Porque algo que me falta não está.

A meio da noite da véspera de Natal, após a ceia, fui alimentar os animais de rua e aquele olhar, aquele ronronar preencheu mais do que qualquer voz na minha ceia de Natal.

Não sei onde me perdi, mas sei onde me posso encontrar.

É duro, porque a vida bate-nos sem piedade. Já a sangrar, estendida no chão, ela continua a dar murros no estômago e quase grita: Vês? É isto que tu mereces!

E dói. E o vazio dilata-se e ocupa lugar num lugar onde antes não existia e talvez nem sentia.

Estar na missa e sentir que aquilo tudo não faz sentido. Que todas as palavras são vãs, amargas e de desesperança.

"E José sofreu duramente, sem perceber o que lhe acontecia!" - As lágrimas rolaram após as palavras do padre. Serei eu como José? Não percebo os desígnios de Deus?

E como mantra repito para mim: "No tempo de Deus"

Deus tem um tempo que não é igual ao nosso. Tem um relógio diferente. Tem uma dimensão diferente. E nunca, talvez, entenderei, mas sei que só me resta isso. Respeitar o tempo de Deus. Viver com este vazio como uma passagem para algo maior e melhor.

Sinto-me revoltada, triste, sem reação, apática, sem vontade de tentar entender. Só aceitar.

Já gritei muito sozinha, já chorei ainda mais sozinha nesta demanda que a vida me impôs. Aceitei, o tempo de Deus.

Mas o vazio não vai embora porque algo não está. Alguém não está. 

Queria sentar-me com alguém e conversar sobre isto. Sem tempo, sem pressa. Só alguém que me escutasse, não me julgasse e só me entendesse.

Mas como sempre não partilho, não verto nem derramo sobre os outros a minha dor.

Converso comigo à noite, adormeço no salgado das minhas lágrimas.

Imagino que embalo nos braços de Deus.

Almejo algo que me proteja, porque o vazio tenta me atingir, a vida tenta desferir mais um golpe e eu só quero atingir os meus sonhos, o maior sonho da minha vida.

Deus, se me escutas, neste Natal só quero uma coisa: que abras o meu caminho para o maior Amor do Mundo.

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